Actividade Rítmica Cerebral

A actividade rítmica cerebral é classificada de acordo com a sua frequência, amplitude, forma e local de origem. O significado do registo electroencefalográfico (EEG) varia de acordo com a idade do utilizador, estado de alerta, fadiga intelectual e morfologia do crânio. O córtex cerebral é constituído por cerca de 3010 neurónios (divididos em cinco tipo de células nervosas) das quais 65 a 75% estão orientadas perpendicularmente à superfície. A actividade rítmica cerebral captada à superfície é originada primordialmente por estas células. O sinal EEG é tipicamente descrito em termos de actividade (1) rítmica e (2) transitória. A actividade rítmica é dividida em bandas de frequência. Em algum sentido, tais bandas são apenas uma questão de nomenclatura, mas a sua definição provém das observações feitas, que demonstram que determinada actividade, como uma dada gama de frequências, mostra padrões na distribuição no escalpe ou alguma significância biológica. A maioria dos sinais observados no escalpe pertence à gama de 1 a 50Hz pelo que, ao nível da frequência, os ritmos cerebrais podem ser divididos genericamente em cinco classes: delta, theta, alpha, beta e ondas gamma.

Ritmos Delta
É a banda até aos 4 Hz (figura 1). São as ondas mais lentas, e tendem a ser as maiores em amplitude. São vistas normalmente em adultos, durante o sono profundo, e em bebés. Em adultos, ocorrem predominantemente no córtex frontal (FIRDA - Frontal Intermittent Rhythmic Delta), e em crianças no córtex occipital (OIRDA - Occipital Intermittent Rhythmic Delta).


Figura1: Ritmos Delta


Ritmos Theta
Na gama 4–7 Hz (Figura 2), estes ritmos encontram-se em crianças mais novas, e podem ser vistos como manifestações de sonolência ou excitação em crianças mais velhas e adultos; estão igualmente reportados durante a meditação, relaxamento ou estados creativos. Têm a sua origem no tálamo.



Figura 2: Ritmos Theta


Ritmos Alpha
Foi a primeira actividade rítmica cerebral observada[54] (Hans Berger), e diz respeito à gama 8–12 Hz (Figura 3). Pode ser encontrada:
- Nas regiões posteriores do escalpe, em ambos os hemisférios, tendo maior amplitude no lado dominante [9]. Estes ritmos são fortemente reduzidos fechando os olhos, ou mediante relaxamento, e desaparecem durante o sono profundo.



Figura 3: Ritmos Alpha

Ritmos Beta
Beta é o grupo de frequências comprendido em 12–30 Hz (Figura 4), visto nos dois hemisférios em distribuição simétrica, e mais evidente no lóbulo frontal, ainda que também se verifique na região parietal.
Normalmente distinguidos em três sub-bandas, 1 (13–18 Hz), 2 (18–24 Hz) e 3 (24–30Hz), com origens distintas, mas globalmente associadas ao processamento de informação exterior, resolução de problemas ou tomada de decisões; como tal, estão presentes em qualquer comportamento motor[62] e são, em geral, atenuados durante a execução dos mesmos[67].

Os de baixa amplitude, com múltiplas frequências (que inclusive variam no tempo), estão associados com pensamentos activos ou introspectivos. Fazem, assim, parte da concentração mental activa. A ocorrência de ritmos Beta numa gama dominante de frequências está, por outro lado, ligado a várias patologias ou ao efeitos de certas drogas, especialmente benzodiazepinas. Podem estar ausentes em áreas corticais danificadas e são o ritmo dominante nos pacientes, de
olhos abertos, em estados de alerta ou ansiedade.


Figura 4: Ritmos Beta


Ritmos Gamma
Pensa-se que intervêm na ligação de diferentes populações de neurónios, em redes cujo propósito é realizar uma certa função, cognitiva ou motora. Estão relacionados com processos mentais de complexidade elevada como é a consciência e percepção, ocorrendo desde os 30Hz até ao limite da banda determinada pelo filtro aplicado ao EEG (Figura 5). Suspeita-se que sejam os ritmos cerebrais que contêm a maior quantidade de informação; no entanto, poucos avanços
significativos foram ainda feitos na sua interpretação.




Figura 5: Ritmos Gamma






Meditação: Mecanismos de acção

Mesmo um breve treino (3 sessões de 20 minutos por dia) em meditação mindfulness foi eficaz para reduzir a dor e a ansiedade em indivíduos que participaram em estudos que envolveram a estimulação dolorosa eléctrica.[4] 
Anteriormente considerou-se que praticar meditação induzia essencialmente estados de relaxamento passivo, principalmente por mudanças ocorridas no sistema nervoso autónomo. No entanto, descobertas recentes, recorrendo a eletroencefalogramas (EEG) e a exames de neuroimagem, sugerem que a meditação está associada a estados activos de consciência que envolvem a reestruturação cognitiva, aprendizagem e mudanças na estrutura do cérebro.

Enquanto um breve treino de meditação pode afectar o processamento de estímulos afetivos, permitindo que as as emoções não sejam mais esmagadoras, praticantes de longo prazo também têm mudanças na estrutura do cérebro e nas reacções à dor [1].

Num estudo que utilizou a ressonância magnética estrutural (MRI), com scanners magnéticos em 17 praticantes de meditação Zen, em comparação com 18 sujeitos de controlo, submetidos a estímulos de calor capazes de evocar  dor moderada, a prática da meditação a longo prazo foi associada com a redução da sensibilidade à dor e a uma maior espessura cortical nas regiões do cérebro relacionadas com a dor, incluindo o córtex cingulado anterior e ínsula anterior [2].


Numa comparação de meditadores avançados e novatos, houve uma redução significativa no desagrado auto-relatado, mas não na intensidade da dor, o que sugere que a consciência não julgadora pode mitigar os efeitos negativos da experiência sensorial da dor [3]. Um estudo dos efeitos analgésicos dos estados ‘mindful’ (atenção plena) em 13 meditadores Zen experientes sugeriu que a modulação da dor pode ser explicada, em parte, pelas mudanças nos ritmos respiratórios [3].

Estados electrofisiológicos observados em meditadores avançados contra meditadores novatos correspondem aos estados que parecem ser únicos. Tais padrões alterados de EEG fornecem evidências adicionais para o conceito de plasticidade neuronal [5]. Enquanto que os estudos de EEG na prática da meditação Zen encontraram um aumento da actividade alfa e teta, geralmente relacionadas ao relaxamento em certas regiões do cérebro, incluindo o córtex frontal. A actividade teta foi associada com um maior grau de experiência em meditação [6]. No entanto, mesmo um breve curso de 4 sessões de meditação mindfulness foi suficiente para aumentar a capacidade de sustentar a atenção, por melhorar o processamento visual-espacial, trabalhando a memória e o funcionamento executivo [7].

Estudos de neuroimagem evidenciaram correlatos neurobiológicos da meditação, com destaque para as regiões do cérebro que regulam o controlo da atenção e do afecto - um dos principais objectivos da instrução e da prática da meditação [8].

Considera-se que a meditação promove ligações sinápticas mais eficazes entre a amígdala (estrutura do cérebro principalmente responsável pelo processamento da emoção e da ansiedade) e o processamento do pensamento no córtex [9].  

Tais estudos sugerem que a prática da meditação Vipassana está associada com a activação do córtex pré-frontal e cingulado anterior, bem como com o aumento da espessura em áreas corticais relacionadas com a atenção e aumento da matéria cinzenta subcortical no hipocampo e na ínsula direita em meditadores de longa data [10].

A partir de um estudo, que analisou a forma como a meditação afecta os parâmetros do sistema cardiovascular, baseado principalmente na avaliação das formas de onda de pressão sanguínea, inferiu-se que a meditação Zen podem melhorar as características do sistema [11]. Da mesma forma, mudanças no fluxo sanguíneo cerebral têm sido observadas durante cânticos meditativos [12].

Foi também proposto que a meditação mindfulness pode ter efeitos protectores no comprimento dos telómeros (protecção nas extremidades dos cromossomas) e, portanto, sobre o envelhecimento celular, por contrariar os estados crónicos de excitação provocado pelo stress.

Segundo este modelo, a meditação mindfulness altera as avaliações cognitivas de "ameaça" para "desafio", aumentando assim os estados mentais positivos e os factores hormonais que parecem promover a manutenção dos telómeros [13].

Conclusão
A meditação começa a ser amplamente aceite como uma técnica mente-corpo para manter a saúde holística e bem-estar. Na medicina, a meditação tem provado ser uma terapia adjuvante segura e eficaz para o tratamento de uma variedade de condições, nos efeitos psicológicos da doença crónica e nos efeitos da dor, muitas vezes ineficaz nos tratamentos convencionais. As evidências que sugerem que a meditação tem propriedades neuroprotetoras têm implicações para melhorar a cognição e a prevenção da demência [14].


Referências bibligráficas

1. Grant JA, Courtemanche J, Duerden EG, et al. Cortical thickness and pain sensitivity in Zen meditators. Emotion 2010;10:43–53.
2. Perlman DM, Salomons TV, Davidson RJ, Lutz A. Differential effects on pain intensity and unpleasantness of two meditation practices. Emotion 2010;10:65–71.
3. Grant JA, Rainville P. Pain sensitivity and analgesic effects of mindful states in Zen meditators: A cross-sectional study. Psychosom Med 2009;71:106–114.
4. Zeidan F, Gordon NS, Merchant J, Goolkasian P. The effects of brief mindfulness training on experimentally induced pain. J Pain 2010;11:199–209.
5. Fell J, Axmacher N, Haupt S. From alpha to gamma: Electrophysiological correlates of meditation-related states of consciousness. Med Hypotheses 2010;March 11:e-pub ahead of print.
6. Chiesa A. Zen meditation: An integration of current evidence. J Altern Complement Med 2009;15:585–592.
7. Zeidan F, Johnson SK, Diamond BJ, et al. Mindfulness meditation improves cognition: Evidence of brief mental training. Conscious Cogn 2010;19:597–605.
8. Rubia K. The neurobiology of meditation and its clinical effectiveness in psychiatric disorders. Biol Psychol 2009;82:1–11.
9. Mayo KR. Support from neurobiology for spiritual techniques for anxiety: A brief review. J Health Care Chaplain 2009;16:53–57.
10. Chiesa A. Vipassana meditation: A systematic review of current evidence. J Altern Complement Med 2010;16:37–46.
11. Liu CY, Wei CC, Lo PC. Variation analysis of sphygmogram to assess cardiovascular system under meditation. Evid Based Complement Alternat Med 2009;6:107-112.
12. Khalsa DS, Amen D, Hanks C, et al. Cerebral blood flow changes during chanting meditation. Nucl Med Commun 2009;30:956–961.
13. Epel E, Daubenmier J, Moskowitz JT. Can mindfulness slow rate of cellular aging? Cognitive stress, mindfulness, and telomeres. Ann N Y Acad Sci 2009;1172:34–53.
14. Xiong GL, Doraiswamy PM. Does meditation enhance cognition and brain plasticity? Ann N Y Acad Sci 2009;1172:63–69.

Budismo - Verdade Absoluta vs Verdade Relativa

Para entender os aspectos profundos das quatro nobres verdades, a principal doutrina do budismo, é fundamental compreender o que é conhecido como as 'duas verdades'. 'As duas verdades referem-se à perspectiva filosófica budista fundamental que considera que existem dois níveis de realidade. Um é o nível empírico, fenomenal e relativo àquilo que nos parece ser, onde funções como causas e condições, nomes e rótulos, e assim por diante podem ser validamente compreendidos. O outro é um profundo nível de existência, para além do primeiro, o qual os filósofos budistas descrevem como o fundamental, ou final, a natureza da realidade, e que muitas vezes é tecnicamente referido como "vazio". A realidade absoluta não manifesta - Shunyata, Paramatman, Tao, Natureza de Buda, etc - é a base suprema de toda a realidade. O seu alcance é experimentado como Nirvana ou libertação ou auto-realização. O oposto deste estado é o mundo dos fenómenos, Maya, a verdade relativa, Ilusão, Samsara, "a roda do renascimento", sujeito à ignorância (avidya) da sua verdadeira natureza, o desejo, a infelicidade, e assim por diante.

Ao investigar a natureza última da realidade, os pensadores budistas tomaram as palavras do Buda, não tanto como uma autoridade suprema, mas sim como pistas para ajudar o seu próprio insight, pois a autoridade última deve sempre residir na própria razão do indivíduo e da sua análise crítica. É por isso que encontramos várias concepções de realidade na literatura budista. Cada uma é baseada num nível diferente de entendimento da natureza última. 


Meditação e o sistema nervoso autónomo

O sistema nervoso, o qual é parte de um subtil e sofisticado mecanismo de controlo, é dividido em três componentes: o Sistema Nervoso Central, o Sistema Nervoso Periférico e o Sistema Nervoso Autónomo. Estes sistemas controlam a nossa acção e percepção do universo, através dos sentidos, e o sistema autónomo também rege o funcionamento automático do nosso corpo, controlando as indispensáveis tarefas não conscientes, tais como, por exemplo, o batimento cardíaco.

O sistema nervoso autónomo
Sistema nervoso autónomo (também chamado sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral) é a parte do sistema nervoso que controla a vida vegetativa, ou seja, controla funções como a respiração, circulação do sangue, batimento cardíaco, temperatura corporal e digestão, entre muitas outras funções.

O desequilíbrio crónico do sistema nervoso autónomo sob a forma do aumento do tónus simpático e/ou da diminuição do tónus parassimpático é um poderoso factor de risco para a morbilidade e mortalidade cardiovascular [2] e [3]. A activação simpática cardiovascular aumenta a carga de trabalho e contribuem para a disfunção endotelial, espasmo coronário, hipertrofia ventricular esquerda, enfarte do miocárdio, arritmias e a morte súbita [3] . Diversos factores afectam negativamente o equilíbrio do sistema nervoso autónomo, incluindo resistência à insulina e síndrome metabólica, medicamentos simpaticomiméticos ou certas drogas e agentes psicossociais geradores de stresse agudo e crónico estão associadas ao aumento do risco de eventos cardiovasculares. Por outro lado, as terapias que oferecem um equilíbrio autónomo mais favorável, como o exercício físico, beta-bloqueadores e inibidores da enzima conversora da angiotensina podem reduzir a morbidade e mortalidade cardiovascular [3]. Descrito como um estado de hipometabolismo vigilante [4], as práticas de meditação podem agudamente exercer influência positiva e significativa sobre o tónus autónomo com activação parassimpática [5]. A prática regular da meditação pode influenciar favoravelmente o equilíbrio autónomo [6].

Variabilidade da frequência cardíaca e reflexos autónomos
A variabilidade da frequência cardíaca, uma medida da variação da frequência cardíaca instantânea ao longo do tempo, pode fornecer uma janela para o estudo do funcionamento do sistema nervoso autónomo e equilíbrio autónomo. Uma baixa variabilidade da frequência cardíaca tem sido associada com o aumento do risco de eventos cardiovasculares e mortalidade, e também tem sido associado a um mau prognóstico na insuficiência cardíaca e pós infarte do miocárdio [7], [8], [9], [10] e [11]. O aumento da variabilidade da frequência cardíaca aparece como cardioprotector na maioria, mas não em todos os grupos (por exemplo, aqueles com disfunção do nó sinusal), como demonstrado no estudo Rotterdam [12].

Três sub-bandas de variabilidade cardíaca de interesse particular incluem: oscilações de alta frequência (0,15-0,4 Hz), oscilações de baixa frequência (0,04-0,15 Hz) e oscilações de baixa frequência (0,3-0,04 Hz) [13]. Outra variável a ter em consideração é a arritmia sinusal respiratória (RSA). A RSA é um fenómeno fisiológico normal, durante o qual a frequência cardíaca aumenta com a inspiração e diminui com a expiração.

A respiração lenta, na freqüência de 0.1 Hz (seis ciclos respiratórios por minuto, um ciclo a cada 10 segundos), mostrou-se efectiva para aumentar a oxigenação sanguínea, a tolerância ao exercício e  a sensibilidade do barorreflexo [14] [15] , [16], [17], [18] e [19]. Esta é a mesma fisiologia que ocorre durante o treino de biofeedback para aumentar a variabilidade da frequência cardíaca [20].

Foi demonstrado que durante a recitação da Avé Maria em Latim e durante a recitação de um mantra de Yoga os praticantes diminuem espontaneamente sua taxa respiratória para 6 respirações por minuto, o que aumenta a variabilidade da frequência cardíaca e a amplitude das ondas de Mayer e até mesmo obteve-se variações rítmicas no fluxo sanguíneo cerebral.

Um dos benefícios da meditação é a redução da activação do sistema nervoso simpático e o aumento da actividade do sistema nervoso parassimpático. A meditação pode ajudar a prevenir e a tratar muitos sintomas negativos, desligando a resposta automática ao stresse.



Referências

[1] K. Rubia. The neurobiology of meditation and its clinical effectiveness in psychiatric disorders
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[2] S. Emani, P.F. Binkley. Mind–body medicine in chronic heart failure: a translational science challenge
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[3] B.M. Curtis, J.H. O'Keefe Jr. Autonomic tone as a cardiovascular risk factor: the dangers of chronic fight or flight Mayo Clin Proc, 77 (1) (Jan. 2002), pp. 45–54.

[4] R. Jevning, R.K. Wallace, M. Beidebach. The physiology of meditation: a review. A wakeful hypometabolic integrated response Neurosci Biobehav Rev, 16 (3) (Fall 1992), pp. 415–424.

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[6] R. Sudsuang, V. Chentanez, K. Veluvan. Effect of Buddhist meditation on serum cortisol and total protein levels, blood pressure, pulse rate, lung volume and reaction time Physiol Behav, 50 (3) (Sep. 1991), pp. 543–548.

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[8] J.M. Dekker, R.S. Crow, A.R. Folsom et al. Low heart rate variability in a 2-minute rhythm strip predicts risk of coronary heart disease and mortality from several causes: the ARIC study. Atherosclerosis Risk In Communities Circulation, 102 (11) (Sep 12 2000), pp. 1239–1244.

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[11] T.G. Farrell, O. Odemuyiwa, Y. Bashir et al. Prognostic value of baroreflex sensitivity testing after acute myocardial infarction Br Heart J, 67 (1992), pp. 129–137.

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[13] B. Xhyheri, O. Manfrini, M. Mazzolini, C. Pizzi, R. Bugiardini. Heart rate variability today. Prog Cardiovasc Dis, 55 (3) (Nov-Dec. 2012), pp. 321–331.

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[16] S. Phongsuphap, Y. Pongsupap, P. Chandanamattha, C. Lursinsap. Changes in heart rate variability during concentration meditation Int J Cardiol, 130 (3) (Nov. 28 2008), pp. 481–484.

[17] P. Lehrer, Y. Sasaki, Y. Saito Zazen and cardiac variability. Psychosom Med, 61 (6) (Nov-Dec. 1999), pp. 812–821.

[18] C.K. Peng, J.E. Mietus, Y. Liu et al. Exaggerated heart rate oscillations during two meditation techniques
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[19] D. Cysarz, A. Büssing. Cardiorespiratory synchronization during Zen meditation. Eur J Appl Physiol, 95 (1) (Sep. 2005), pp. 88–95.

[20] P.M. Lehrer, E. Vaschillo, B. Vaschillo. Resonant frequency biofeedback training to increase cardiac variability: rationale and manual for training. Appl Psychophysiol Biofeedback, 25 (3) (Sep. 2000), pp. 177–191.

Em busca da paz mental

O mito da mente calma
Nas últimas décadas a 'paz mental/paz de espírito' tornou-se num termo extremamente difuso. Principalmente por causa de todas as imagens pouco úteis que evocam na mente da maioria das pessoas - muitas vezes incluindo monges com a respectiva indumentária, sentados em posição de lótus com um olhar sereno nos seus rostos. Porquê tão serenos? Principalmente porque eles conseguiram uma mente ‘vazia’, ‘vazia’ de pensamentos ou emoções? Isso poderá iludir muitas pessoas, já que vivem vidas frenéticas, num mundo moderno, impulsionado e guiado para e pela tecnologia, e desta forma a paz mental é vista como simplesmente fora do alcance.

Já desejou poder parar sua mente de trabalhar horas extras?
Acredita-se que cada pessoa tem milhares de pensamentos todos os dias. Isso é uma quantidade grotesca de pensamentos e mais de metade desses pensamentos é de natureza negativa. Estes números fazem qualquer tentativa de treinar o 'pensamento positivo' tendo apenas pensamentos positivos, uma tarefa monumental, senão impossível.

A paz mental é estar consciente da sua mente
Como sabe que tem uma mente? Está ciente disso? Então, por que razão, dentro de si, neste momento, existe uma consciência que está ciente de tudo o que está a acontecer, incluindo os seus pensamentos, emoções, sensações físicas e circunstâncias de vida. Por força do hábito (e porque não ensinaram melhores alternativas à medida que fomos crescendo) a maioria das pessoas coloca a maior parte da sua atenção sobre o que elas estão cientes de, em vez da consciência que está ciente de que elas estão conscientes. Ao fazer isso, elas perdem a 'consciência plena, calma, silenciosa e espaçosa' - que é naturalmente cheia de paz - porque elas colocam toda a sua atenção na sua mente. Infelizmente, tudo isto significa que elas nunca chegam a desfrutar da consciência calma que vive sempre dentro delas.

O Milagre da Paz com a Mente
O que isto significa em última análise, é bastante interessante. Devido ao facto da sua consciência atenta já ser inerentemente calma, pacífica e silenciosa, não será necessário tentar parar os seus pensamentos e as suas emoções para experimentar a paz. Em vez disso, tudo que poderá precisar fazer é aprender a estar em paz com a sua mente, redescobrindo e colocando a sua atenção sobre a sua própria consciência. Esta meta é possível para quem está disposto a interpretar uma nova forma de se relacionar com os seus pensamentos e emoções.


Budismo - O Caminho Óctuplo

A palavra que o Buda usava para meditação era bhavana, desenvolvimento mental, uma tarefa que envolve, entre outros, a concentração correcta (o oitavo passo) e a atenção correcta (sétimo passo)...
emocoes mindfulness
No budismo considera-se que a quarta nobre verdade dá origem ao que é conhecido como o "caminho óctuplo". São oito factores que não são vistos como consecutivos, mas sim complementares. São eles:

1) compreensão ou visão correctas;
2) intenção correcta;
3) fala correcta;
4) conduta correcta;
5) meios de subsistência correcto;
6) esforço correcto;
7) consciência correcta;
8) concentração correcta.
Segundo Stoddart (2004), os dois primeiros passos do caminho óctuplo dizem respeito à sabedoria, do terceiro ao quinto envolvem a moralidade e os três últimos a realização.
O caminho óctuplo, com três partes — sabedoria, realização e moralidade — exemplifica assim os três elementos que estão necessariamente presentes em todas as  religiões: a verdade, o caminho espiritual e a virtude (Stoddart, 2004).

A compreensão ou visão correctas dizem respeito a uma profunda compreensão das quatro nobres verdades.

A intenção correta (também apresentada em livros budistas como pensamento correto) diz respeito ao atingir um estado de consciência onde não há obstruções nos processos de pensamento. Thich Nhat Hanh explica que o processo de pensar é a fala da mente e como o pensamento conduz à acção, esta etapa é fundamental para que o budista possa ter uma acção correta.

A intenção correta diz respeito à ausência de todas as obstruções emocionais. (...) um estado de consciência límpido (...) livre das considerações limitadoras do auto-interesse, sem tensões. (...) a mente deveria ser pura e livre da 'sede' carnal, da malevolência, da crueldade e coisas semelhantes." (Saddhastissa, 1977)

A fala correcta, segundo Hanh (2001) envolve falar sempre a verdade, não dizer coisas contraditórias, não falar com crueldade e não exagerar nem retocar os factos. Uma fala caracterizada pela presença de sabedoria e bondade.

A conduta ou acção correcta, segundo Hanh (2001) teria como base a ideia da atenção plena baseada no princípio da não-violência tanto para si mesmo como para os outros. Saddhatissa (1977) enfatiza a ideia de compreensão dos motivos subjacentes às acções, não sendo possível a acção correcta sem uma compreensão clara e profunda do que motiva qualquer acção. Por meios de subsistência correctos entende-se a noção de encontrar uma profissão ou meio de ganhar a vida que não entre em conflito ou transgressão com a ideia de compaixão, de respeito a si mesmo e ao outro.

O sexto passo, o esforço correcto, enfatiza um aspecto importante do budismo, o da força de vontade. Ao lado do elemento sabedoria, aquele que Buda mais teria preconizado teria sido o da vontade. Toda e qualquer meta para ser realizada depende de um imenso empenho. Alcançar a iluminação, meta do budismo, requer o uso determinado da vontade. Buda forneceu uma série de orientações a respeito desse factor, ligadas à ideia de tempo e de equilíbrio. Ele sugeria um caminhar lento e constante no caminho ao invés dos exageros. Ou seja, o esforço correcto está ancorado na compreensão correcta.

Em relação aos dois últimos factores, consciência correcta e concentração correcta, Smith (2004) considera-os como os mais ilustrativos dos ensinamentos do Buda, ligados à importância da prática da meditação.
A palavra que o Buda usava para meditação era bhavana, desenvolvimento mental, uma tarefa que envolve tanto a correcta concentração (o oitavo passo) quanto a correcta atenção (sétimo passo). (...)
"Nenhum mestre deu tanto crédito à influência da mente sobre a vida quanto o Buda. (...) O Buda aconselha tanto a auto-análise contínua que parece desencorajadora, mas ele achava que ela era necessária por acreditar que a libertação da existência inconsciente é apenas alcançada pela consciência refinada. (...) A correcta atenção tem como objectivo testemunhar todos os eventos físicos e mentais, inclusive as nossas emoções, sem reagir a eles, sem condenar alguns nem se prender a outros.
(Smith & Novak, 2004).

Esses dois fatores juntos levariam à percepção de que todos os estados físicos e mentais são fluídos e não duradouros; que o apego a estes estados está na raiz de grande parte do sofrimento que experimentamos; que temos pouco controlo sobre esses estados mentais e sensações físicas, assim como pouca consciência das nossas reacções. O aprofundamento da prática nesses dois factores permitiria ao indivíduo uma crescente autonomia em relação aos seus estados mentais e domínio da própria consciência ou factores mentais em jogo nas percepções que o sujeito tem de si mesmo e do mundo.

O caminho óctuplo fornece, assim, os parâmetros básicos que orientam o praticante, tanto numa relação interna à própria prática da meditação, como num espectro mais amplo, ou seja, fornecem os critérios para a acção no mundo. Eles estabelecem uma dimensão de reflexividade à própria prática e à acção no mundo.


Referências

- Hanh, T. N. (2001). A essência dos ensinamentos de Buda. Rio de Janeiro: Rocco.
- Saddhatissa, H. (1977). O caminho do Buda. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
- Smith, H. & Novak, P. (2004). Budismo: uma introdução concisa. São Paulo: Cultrix.
- Stoddart, W. (2004). O budismo ao seu alcance: princípios e expansão. Rio de Janeiro: Nova Era.

Características centrais do Budismo



budismo mindfulness

“O Budismo não é uma religião que deva ser aceite cegamente, deve ser compreendido e constantemente questionado. O Buda disse, ‘aceitai as minhas palavras somente após terem examinado o seu sentido por vós mesmos; não as aceiteis apenas em nome do respeito que tendes por mim’. Embora com o decorrer do tempo o Budismo tenha sido, algumas vezes, afectado pela tradição, rituais, etc., o seu criador não formulou mais do que um método a ser experimentado.” (Saddhatissa, 1977, p. 18) 
Uma das características distintivas que merece ser salientada em relação ao Budismo é que Buda nunca pretendeu ser mais do que um ser humano. Buda, que significa o Desperto, é o nome que Sidarta Gautama ficou conhecido após ter alcançado o estado de iluminação ou de completa compreensão. O primeiro sermão de 'Buddha Shakyamuni' foi dado aos cinco ascetas que estavam no Parque das Gazelas em Sarnath, Benares. Nesse sermão, Buddha expôs os ensinamentos fundamentais do budismo: as quatro nobres verdades.

Ele explicita as quatro nobres verdades, a base de uma nova religião, sendo elas:
1) a verdade da existência do sofrimento;
2) a verdade de que há uma causa para esse sofrimento;
3) a verdade de que o sofrimento pode cessar;
4) a verdade do caminho que conduz ao cessamento do sofrimento.

Neste conjunto, a quarta nobre verdade é axial, já que ela apresenta um conjunto de instruções práticas que efectivam o cessamento do sofrimento. Essas práticas são conhecidas no budismo como "O caminho óctuplo". São ao mesmo tempo, pode-se dizer, a base ética do budismo e, em decorrência, um padrão de referência para os praticantes monitorizarem a sua conduta e desenvolvimento. A ideia de auto-
monitorização pode ser entendida como uma característica distintiva do budismo. Segundo Buda não se deve ser budista por se ter fé nele, mas pela verificação, através da experiência pessoal, que esse caminho é válido.
Essa característica do Budismo como método permite que ele possa ser visto tanto como uma religião, como uma filosofia ou como uma psicologia prática ou como uma mistura de todos.


Referências
Saddhatissa, H. (1977). O caminho do Buda. Rio de Janeiro: Zahar Editores.